Segunda-feira, 16 de Março de 2009

A crise, além de prejuísos, produz reportagens imbecis!

Pessoal,

minha revolta é com essa reportagem do site do Globo. Para começar o título: "O mito da vantagem da Bolsa no longo prazo" é ridículo. Basicamente compararam o Ibovespa (um índice de alta volatilidade) com o CDI (um índice de baixíssima volatilidade que é lastreado pela taxa Selic).

A reportagem trás duas "revelações":
  1. Entre 1999 e 2008 a rentabilidade do CDI foi de 404,84% e do Ibovespa foi de 453,51%;
  2. Um japonês que colocou dinheiro na bolsa nos anos 1980 hoje tem um terço do valor;

A primeira "revelação" é completamente leviana e sem fundamentos, por várias razões:
  1. A reportagem se aproveita da maré de baixa da Bolsa, causada pela pior crise financeira desde 1929. (Devo lembrar que a alta volatilidade faz parte da natureza deste investimento);
  2. A reportagem se refere ao Ibovespa como se o mesmo compreendesse todas as empresas negociadas na bolsa e se esquece que o índice compreende somente as ações mais líquidas (corresponde a 80% da liquidez da bolsa);
  3. A reportagem não se preocupa em informar que, mesmo em tempos de crise, algumas ações que compõem o índice apresentaram valorização (quer um exemplo? Natura(NATU3)).

A segunda "revelação" é tão leviana quanto a primeira, já que Brasil e Japão são países distintos, que vivem momentos econômicos completamente diferentes. O Japão é um país que já tem uma economia madura e que não tem problemas sociais tão graves quanto os nossos. Já o Brasil necessita muito de empregos, profissionais capacitados, investidores, escolas, universidades, hospitais, etc. e também das empresas para fornecer produtos e serviços para toda a nossa população de miseráveis. O país tem muito espaço para crescer e precisa muito disso, já o Japão também precisa, mas não precisa tanto, e por isso na última década não apresentou um crescimento expressivo. Além disso, os problemas que o Japão enfrenta hoje para crescer são diferentes dos problemas que o Brasil enfrenta.

Existe outro motivo pelo qual eu classifico essa afirmação como leviana: Eu duvido que todos os japoneses que colocaram dinheiro na bolsa em 1980 tenham hoje um terço do valor. Isto significaria que nenhuma empresa japonesa, com capital aberto na bolsa, conseguiu apresentar crescimento sustentável nos últimos 30 anos.

Por último, se olharmos por outro ângulo, a reportagem de fato prova que a Bolsa, no longo prazo, é um excelente investimento, já que nem a pior crise, que somente é comparada com a crise de 29, conseguiu fazer com que a bolsa produzisse uma rentabilidade inferior à do CDI, que, diga-se de passagem, em tempos de vacas gordas, o CDI chegou a oferecer aos investidores investimentos em renda fixa (ou seja, com menos riscos) à taxas de rentabilidade anual próximas à 45%(1999) e 25%(2002).

Leio o Globo todos os dias, acho lamentável que uma reportagem como essa tenha sido publicada. A dúvida que tenho è: ou essa reportagem foi "encomendada", ou quem a escreveu possui um conhecimento muito superficial em mercado financeiro e economia.

Sexta-feira, 13 de Março de 2009

Guilherme Affonso Ferreira - "Quando tudo se cumpre e o preço se ajusta, é hora de sair"

Esse post foi retirado da reportagem de capa da revista ValorInveste da edição de maio de 2008. Caso haja interesse em saber mais recomendo a compra da edição.

Resolvi continuar com este post pois acho que pode iluminar os mais aflitos, em muitos aspectos essa história contém cenários semelhantes à crise atual.

Filho de um bem sucedido empresário carioca que havia se mudado para a Bahia nos anos 50, Guilherme aplicou na bolsa o caixa da empresa da família. Seu objetivo não era formar uma poupança para a aposentadoria, mas fazer crescer o caixa da Bahema Equipamentos para financiar a compra das concorrentes.

Tudo começou em 1986, quando o plano cruzeiro quebrou e cedeu lugar para plano cruzado. Um dos efeitos dessa transição foi uma quebra de bancos, que da noite para o dia deixaram de contar com os ganhos fáceis da ciranda financeira. O preço das ações dos bancos começaram a refletir a desconfiança e o medo do mercado (opa! conheço esse filme... hehehe...).

Foi então que realizou o primeiro e o maior movimento no mercado acionário. Convencido de que não existe sociedade sem sistema bancário examinou ações dos grandes bancos brasileiros, porém a escolha não foi fácil. Implicava em assumir riscos que não eram visíveis na época e só seriam visíveis anos mais tarde, quando o o plano Real venceu a inflação. Elinimou Itaú e Bradesco que já eram muito grandes, sobraram as instituições de médio porte como o Econômico, o Nacional, o Bamerindus e o Unibanco. Optou pelo banco da família Moreira Salles, o Unibanco. Os três primeiros quebraram depois de 1995, mas o Unibanco cresceu, e cresceu muito.

Em 1986-87 sua carteira de ações custava nada mais nada menos que US$ 5 milhões, hoje mais de 20 anos depois sua carteira vale a bagatela de R$400 milhões. Só no ano passado recebeu mais de R$ 9 milhões em dividendos e suas ações representam 1,2% do capital do Unibanco.

Em 1988 o estado brasileiro quebrou devido à crise da dívida externa dos países em desenvolvimento. O volume de obras obras públicas despencou e criou a oportunidade de consolidação que a família Affonso Ferreira tanto esperava.

Há 5 anos a Bahema equipamentos foi vendida por um valor equivalente a 5% da carteira de ações. A carteira virou a Bahema Participações. Houveram exemplos de outras tacadas certeiras, como foi o caso da Manah, quando o governo cortou o subsídio aos fertilizantes. Teve também a Eternit que ingressou na carteira sob protestos contra o amianto e Metal Leve, justamente quando o então presidente Collor abriu o país às importações de auto peças. Entre os fracassos estão a Colde Frigor e a Madeirite.

As novas apostas da Bahema são a Ferasa, o Pão de Açúcar, a Cremer e a Coteminas. Ao ingressar no capital de uma empresa a primeira coisa que a Bahema faz é escrever uma lista dos desejos , com tudo que a empresa poderia fazer para melhorar o seu valor. "Quando tudo se cumpre e o preço se ajusta, é hora de sair", diz.

Sexta-feira, 6 de Março de 2009

Dados da indústria, SELIC e Renda Fixa

Conforme o divulgado pelo IBGE, a produção industrial brasileira cresceu apenas 2,3% em relação a Dezembro, mas sobre Janeiro de 2008 a houve queda de mais de 17%. O problema é que as projeções em média sinalizavam um crescimento de 8,5% frente a Dezembro e queda de 11,2% frente a Janeiro de 2008.

As consequências dessa frustração do é que deveremos ter uma queda mais acentuada na taxa de juros. Nos dias 10 e 11 de Março acontecerá a reunião do Comitê de Política Monetária, o COPOM justamente para rediscutir a política monetária. Esse dado também revela que a crise ainda está trazendo impactos negativos para a economia do país. Alguns analistas de investimento acreditam que na próxima reunião do COPOM o corte na taxa de juros seja de 1,0% podendo chegar a 1,5%, numa atitude mais agressiva do COPOM. Alguns analistas prevêem que a SELIC possa cegar, num cenário de agravamento da crise, ao patamar de 9,5%.

Como ficam os investimentos? A priori num cenário da taxa de juros, se a inflação terminar o ano em 4,5%, isto é, na meta, significa que a maior parte dos fundos de renda fixa e referenciados DI estão sujeitos a obter um desempenho fraco este ano. Entretanto ainda acredito que a nossa economia começe a se recuperar no segundo semestre desse ano e volte à normalidade durante o próximo ano.